Se o ditado “em time que está jogando não se mexe” for correto e comprovado, é mais um motivo para aplaudir o cinema brasileiro de pé e de salto alto. O cinema brasileiro parece ter gostado das comédias românticas e, se isto está funcionando, quem sou eu para discordar?! Além do gênero, algumas figurinhas também vêm aparecendo com freqüência – uma freqüência de dar medo aos mais radicais, mas que, definitivamente, depois de assistir “Se eu fosse você”, não me atrevo a criticar.A comédia romântica, é fato, vende. E vende bem! Principalmente para o grande público. Não chega ao ridículo do pastelão e é sóbria e relaxante. Própria e perfeita para uma Sessão da Tarde ou uma sexta-feira, depois de um fatigante dia no trabalho. Você esquece os problemas e se diverte na dose certa. Além de cativante, ela é um excelente produto de marketing, porque pipoca de merchandising - aquelas propagandinhas camufladas no meio do filme.
Algumas figurinhas repetidas – que, lembrando, não completam álbum – às vezes só servem para levar o público, descrente do cinema nacional, às salas de todo o país. Truque de marketing que funciona! Eu nunca fui fã de ator global, muito menos da insossa Glória Pires e do cabeludo Tony Ramos. A verdade é que me encantei com os personagens, apesar de ter me interessado mais a parte em que um está no corpo do outro. Os dois estão estonteantes, belíssimos, se é que me permitem o trocadilho infeliz. Fugir do lugar comum e não interpretar eles mesmos parece ter motivado a dupla. Sim, porque sempre que Glória Pires e Tony Ramos interpretam um papel, eles interpretam eles mesmos, com uma pincelada de arte de roteiro. É o típico “se isso tivesse acontecido comigo, eu reagiria assim” e não uma reação do personagem, com o histórico tal ou qual. E é isso que diverte no filme: ver Glória Pires andando de perna aberta e contando piada “de homem” e Tony Ramos com problemas para fazer pipi, rebolando etc. e tal.
Apesar de tocar numa tecla bastante comum no mundo cinematográfico (a troca de papéis) e partir de um desejo da satisfação de simples curiosidades: saber como é ter o órgão sexual do outro, saber que tanto cochicham as mulheres ou que tipo de piada fazem os homens quando estão sozinhos.
Filmes bons geralmente te prendem desde os dois primeiros minutos, te faz querersaber o final. “Se eu fosse você” te prende um pouquinho mais para frente, quando você começa a se entrosar com os personagens, a participar da briga do casal, do cotidiano, se colocar no lugar de cada um. Que levante a mão qualquer casal que não passou por aquilo. E é aí que o roteiro começa a ficar interessante: os diálogos, as deixas. É um dos poucos filmes de comédia romântica brasileiros que não apelam para o finalzinho feliz e que deixam o público caminhar sozinho na (des)complicada trama. Um filme que fala com imagens! O espectador sabe antes do casal que a troca aconteceu porque as imagens disseram: a posição de cada um dormir, os hábitos matinais. Além disso, a montagem é bastante interessante. Auxiliada por um roteiro inteligente, ela foge do lugar comum da PR (pergunta-resposta). A seqüência inicial mostra uma rotina desgastada sem que o casal precise discutir a respeito, o que torna os diálogos ricos e reais.
O que é imperdível neste filme é número um: Patrícia Pillar bancando a pseudo-lésbica; número dois: Patrícia Pillar e Tony Ramos dançando e cantando uma música dos anos 80; e numero três: a Glória Pires dando uns passinhos a la Eminem, por assim dizer, na apresentação do coral.
Sutil, inteligente, engraçado!
(“Se eu fosse você”, 2006, Daniel Filho)
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