29 novembro 2006

Efeito Borboleta 2: um erro (Butterfly Effect 2)

“Efeito Borboleta 2” já anuncia seu fracasso nos primeiros 3 minutos de filme. Um acidente de carro acontece, um espetáculo de sons, com freios, vidros quebrando e então o silêncio. O plano é o pára-brisa quebrado com rajadas de sangue escorrendo. Para a surpresa de quem gostou do primeiro filme – com Ashton Kutcher e Amy Smart – este sangue escorre até formar um 2, como em “Pânico 2”. É neste momento que me perguntei: será que entrei na sessão errada? Quando já ia checar meu ingresso, a trilha sonora anuncia o que aparece escrito em volta: Butterfly Effect. Isto não pode dar certo! Esta seria uma seqüência com um triste fim
O pouco crédito que ainda restava foi-se todo com a atuação péssima do galã principal Eric Lively, no papel de Nick Larson. Insosso, ele não conseguiu construir um personagem que gerasse identificação ou simpatia, como o personagem de Kutcher no primeiro filme. Nem Erica Durance, a Lois Lane de “Smallville”, foi capaz de segurar a onda da interpretação.
Quanto aos efeitos especiais? Tétricos. Uma sacudida na câmera e pronto, deixe o público adivinhar o que mudou. Onde estava brilho do primeiro filme de ver toda a vida de Evan acontecendo em segundos?
O primeiro roteiro demorou 8 anos para ser elaborado. O segundo, menos de 2, já que o primeiro teve sua estréia em 2004. Podiam ter esperado mais um pouquinho, não acham?


Os personagens
O personagem de Lively também não ajudou: fraco e de caráter duvidoso. Aliás, assim eram todos os personagens. Talvez isso fosse intencional, na tentativa de construir um mundo em que houvesse personagens realistas, com objetivos menos altruístas do que os de Evan, personagem de Kutcher no primeiro filme. No entanto, esta escolha parece não ter sido afortunada, já que resultou numa história vazia. Não parecia que Larson tentava fazer a escolha certa. No fundo, ele só queria se dar bem, tirar vantagem da “doença” para passar por cima de outras pessoas. E aí veio o castigo divino: dava tudo errado! Não era como Evan, que tentava sempre fazer a coisa certa e, no final das contas, acaba sendo pior.
E o que aquela máfia tinha a ver com o filme? Aquele cara estranho fazendo sexo oral em Nick. Bizarro, se não de mau gosto! E o amor do casal principal, assim como em “Brokeback Mountain”, não convenceu. Para que o público acredite num amor que transcende barreiras espirituais, temporais e circunstanciais, é preciso muito mais do que um diálogo pertinente. Precisa de carisma, interpretação, história, como em “A Casa do Lago”. O que tinha aquele casal de tão especial se um telefonema era mais importante do que o aniversário da mocinha?
Tentaram construir um personagem que fosse ambicioso e o que conseguiram foi um babaca sem escrúpulos. Depois, o objetivo era reproduzir o sacrifício maior do primeiro filme: o galã não terminar com a mocinha. Solução: ela pega o carro, sai desembestada e ele morre. Por que Larson apenas não jogou o celular para bem longe? Era o mais óbvio a se fazer. Eles forçaram atitudes desconexas para construir uma história de 92 insuportáveis minutos.

O triste fim da seqüência
A princípio, todas as seqüências deveriam ser proibidas. Uma seqüência que não traz os mesmos atores e histórias do primeiro é ainda pior. Ela quebra a identificação do público.
É como quando Mulder e Scully foram substituídos por Dogget e Reyes em “Arquivo X”. Perdeu a graça! Pode perguntar se há algum eXcer* que se preze, shipper ou anti-shipper, que sobreviveu à esta mudança. É certo que nem toda seqüência é pior do que o original. “Jogos Mortais 3”, por exemplo, dá um banho no primeiro e segundo juntos. “X-men” II e III também são melhores que o primeiro. O que não acontece com a trilogia Pânico. Todo o encanto de satirizar filmes de terror no primeiro é fracamente elucidado nos demais.
Uma alternativa para os fracassos sucessivos das seqüências seria a pesquisa de mercado. Há uma demanda para a seqüência de tal filme? Que tal passar o roteiro por uma aprovação de público? Convidem lá alguns críticos de cinema e cinéfilos ao redor do mundo a ler o roteiro e perguntem o que acham. Com certeza, pouparia muito tempo e dinheiro de pobres mortais, como nós, que só querem ver um bom filme no cinema.
O engraçado é que seqüências parecem ser mais bem vistas aos olhos dos grandes estúdios do que histórias originais. Vai saber...

(“Butterfly effect 2”, 2006, John R. Leonetti)


* eXcer: assim são chamados os fãs de “Arquivo X” pelo mundo afora. Um eXcer shipper é aquele que torce para o romance entre Mulder e Scully e o anti-shipper é o que torce contra. Shipper vem da palavra inglesa relationship, que significa relacionamento.

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