19 outubro 2006

Saí do cinema pensando: eu quero ser Emily (The devil wears Prada)


O maior dos clichês tinha se apossado dos meus pensamentos: “até que não deve ser tão ruim”. Meu objetivo de vida seria, a partir daquele momento sublime, o mais fútil do universo: eu quero ser a assistente superficial de alguém importante do mundo da moda. Passando o momento de êxtase, percebi que o que eu queria era ver o filme de novo e de novo.
Em "O diabo veste Prada" (The devil wears Prada, 2006), Meryl Streep, como sempre, faz jus ao seu recorde de indicações: impecável. O divórcio é uma cena memorável. A mulher de negócios finalmente desmorona. 5 segundos mais tarde, lá está ela de volta ao pedestal. Só Meryl Streep.
O roteiro é completinho, nada muito fora do comum. O que chama a atenção são os diálogos e o memorável: “that’s all!”. A trilha sonora também eleva ao máximo o potencial da fotografia. Destaque para os momentos em que Andréa deixa alguns lugares, alguns momentos cruciais da trama. Ela se vê sozinha, tendo de enfrentar aquele monstro, sem ver sentido naquilo que faz. Ela tem de lidar com esta nova mulher que surgiu depois de Miranda. Detalhe para “Crazy”, na voz de Alanis Morissette, que entra num momento bastante oportuno.
Gisele Bundchen entra com a corda toda. Apesar do fiasco de “Táxi”, um filme que apenas deixa os cuecões de plantão com o nariz em pé, ela se supera numa aparição simples, humilde e muito meiga. Ela não estava lá simplesmente fazendo uma ponta. Ela fez, digamos, o trabalho que Roberto Carlos tinha que ter feito no jogo contra a França na última Copa do Mundo. Em outras palavras, ela tinha um significado muito interessante não triangulo Emily-Miranda-Andrea e cumpriu direitinho o objetivo do personagem.
Tudo culpa da direção pulso firme de David Frankel. O cara não é pouco expressivo, mas dirigiu alguns episódios de Sex and The City... Não é pouca coisa. E deixou de lado o aspecto do glamour asqueroso da imprensa. Ou seja, ele não condenou nem inocentou a mídia que trabalha com moda, simplesmente deixou clara a necessidade dela.
Anne Hathaway é simplesmente perfeita para o papel. Linda sem as roupas chiques, estonteante com elas. O personagem também ajuda bem: indecisa, cheia de pudor, honestidade e toda essa baboseira dispensável ao mundo dos negócios. Clichê novamente.
Outro ponto do roteiro/direção é o modo como estes clichês são trabalhados sutilmente.
Brilhante!

(“The devil wears prada”, 2006, David Frankel)

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